Dentro da viatura, de regresso a casa, sentia-se parte de uma parada militar num desfile qualquer.
Os carros, alinhados três a três, deslocavam-se, em movimento lento e compassado, com paragens regulares nos semáforos vermelhos. Ou então nos cruzamentos comandados pelos imperativos apitos do polícia de trânsito, fardado a rigor. O frio e chuva da manhã tinham desaparecido, já nem recordações eram, e o fim de tarde fechava-se opressivo, quente e suado. Para refrescar, Ramalho abriu completamente a janela. Mas, imediatamente, uma lufada de ar fétido lhe entupiu as narinas: o tubo de escape do carro que circulava à frente largava um fumo preto e mal cheiroso. Que poluição, berrou, enquanto trancava, lépido, a janela. Aquele era bem um fruto da sociedade moderna, a poluição. Ainda por cima, multiplicado por todos os carros que seguiam na bicha, multiplicado por todas as bichas de carros àquela hora e a outras. E talvez os escapes dos carros fossem apenas uma ínfima parte do problema. Lembrou-se da ribeira lá da terra, onde tomava banho nas tardes quentes de Verão, nas férias em casa dos avós. Ele e mais meia dúzia de rapazolas, entre gargalhadas e gritos, palavrões adolescentes, correrias e brincadeiras. Em calções ou em cuecas, às vezes todos nus, a desafiar os gritos escandalizados das mulheres que lavavam os lençóis nos pegos, tiravam as nódoas das camisas e calças com bagas selvagens e punham a roupa branca a corar na relva, ao sol. Como era fresca a água sussurante e clara que cantava sobre as pedras, verdes de limos, varandas de rãs e de sapos, abrigo de peixes e enguias!... A ribeira tinha juncos, canaviais, represas que manavam água para a rega das terras cultivadas. Tinha pássaros que cantavam ao desafio, namorados que se escondiam nos arbustos das margens, gente que levava lanche e estendia mantas no chão nas horas de calor. Gente de trabalho que descansava, e dormitava, e sonhava, talvez. Um dia veio a fábrica de curtumes. Ele, Ramalho, não deu por nada porque, já então, tinha casado e vivia longe. Voltou a ver a ribeira uma única vez, com o coração tão apertado quanto o nariz, fortemente comprimido entre o indicador e o polegar. Era um cadáver desenterrado, em adiantado estado de decomposição, minado de manchas escuras e fétidas, a exalar putrefacto cheiro. Nada sobrevivera no cemitério aberto em que tudo à volta se transformara. Tudo desaparecera, peixes, batráquios, juncos, canaviais, represas, lavadeiras, namorados, pássaros, flores, rapazes que se divertiam, passeantes de lanche e tardes de domingo. A verdade é que o senhor Francisco Teotónio, dono da fábrica de curtumes, pagava multas mas não reciclava, oferecia peles e outras ofertas caras mas não investia nas necessárias obras que protegessem o ambiente e a ribeira. A verdade é que o senhor Francisco Teotónio se tornou muito rico e poderoso e a aldeia - tão moça e fresca que ele a conhecera!... - uma velha furunculosa e moribunda. Que raio de herança vamos deixar aos nossos filhos?... Como aves agoirentas a espicaçarem-lhe o consciente, acudiram-lhe à memória, fugazes, as sombras lúgubres das praias infectadas, cada ano em número maior, a oferecerem bronzeados com nomes de doenças dérmicas; do buraco do ozono e dos cancros de pele, dos pesticidas e herbicidas, das águas inquinadas e das hormonas para o gado, das devastações e incêndios, das fomes e outras misérias; e das campanhas eleitorais com salvação directa e redenção para todos os homens e todo o mundo. Ah, mas que raio de mundo e de vida vamos deixar de herança aos nossos filhos?... E ainda se o rádio desta merda de carro funcionasse...
*
Lar, doce lar! A verdade é que era um alívio chegar a casa, mal passado aquele dia de trabalho, mal passada aquela viagem de regresso de uma hora, hora e meia. E tudo para percorrer uns míseros dez quilómetros. Mas já estava habituado e, para curar o lamento, pensou que já várias vezes demorara cerca de duas horas no mesmo trajecto. De caminho para casa ainda deitou umas cartas no correio de que faziam parte duas contas que o iriam ajudar a descer o já magro saldo bancário. Enfim, finalmente, lar, doce lar, e aquele sofá mole da sala para descansar o espírito e o físico desta vida moderna sem modernice nem qualidade nenhuma. Para descansar o espírito e o corpo das bichas para o trabalho e do trabalho para casa, do ordenado pequeno e da falta de dinheiro, do jantar que ainda era preciso comprar e fazer, das responsabilidade de criar os filhos e pagar as brutas contas dos colégios, do Gonçalo que não tardaria a chegar, da atenção que lhe não dava e queria dar, desta insatisfação doentia que se fingia esquecer, desta vontade tresloucada de bater, de chorar, gemer. Desta vontade de estar ali, como ele estava, sozinho, no sofá mole da sala sem nada lembrar.
Oh pai, estás doente? Não, filho, estou só cansado. Vai fazer os trabalho de casa que eu vou ali ao supermercado e já venho.
Agora era preciso preparar o jantar, pois Vera chegava tarde demais a casa. E ele que nunca conseguia fazer nada à mesma velocidade da mulher!... Ela, sim, tinha truques de malabarista que o ofuscavam, as panelas e frigideiras ao lume e a salada a ser lavada à torneira, os pratos e talheres a saltarem para a mesa e os desvios para a casa de banho a ver se Gonçalo despachava o duche, os olhos e a atenção no televisor e os bifes a fritarem lourinhos sem esturricarem nem nada. Ele, não, ou fazia uma coisa de cada vez ou saía asneira. Ainda por cima - que raio! - conseguir ver o telejornal era utópico. Nessa precisa altura estaria ele a tentar sobreviver às dificuldades do costume, a improvisar aqui e acolá. É que a comida, nas mãos dele, tinha aquela tendência para o desequilíbrio, ora ficava desfeita ora mal cozida, umas vezes quase sem sal outras apaladada de mais. Salvavam-se os clientes que não eram muito esquisitos e, se o fossem, lá no bairro havia uma tasca onde serviam comida. Que diabo, um homem não pode ter jeito para tudo!...
Claro que estava doente! Não era para estar? Doença sem sintomas externos palpáveis, ilegível em todas as análises e radiografias. Mas que o minava, disso não tinha dúvidas. Que lhe sorvia as forças, as energias, qual gigantesca e tenaz sanguessuga. Também, quem não andava doente na correria desta sociedade vibrante de novas e espantosas tecnologias pagas em prestações quotidianas de agonia e cansaço? O povo estava doente. Sim, o povo, pois uma minoria vivia com aquela qualidade de vida que ele, Ramalho, invejava. Com conforto, riqueza e até excessos. Mas esses não eram o espelho da humanidade. É verdade que havia pior, gente ao pé de quem ele até era um felizardo. Que nos quatro cantos do mundo morriam homens, mulheres e crianças entre guerras, fomes, epidemias e brutalidades. Que a eterna televisão ligada mostrava essas realidades nos intervalos das ficções. Mas a gente toma lá sentido, na distracção entre o prato e a sobremesa, se aquilo é jornal, é realidade, ou ainda uma parte do filme de acção e aventuras. A verdade é que o resto do mundo fica a anos-luz de todas as cozinhas aconchegadas, quentes de vapor e cheiro de comida, em que à noite, cansados, o pai, a mãe e os filhos comem bifes com batatas fritas e remoem as suas dores e os seus fastios, tão pessoais e tão grandes que mal lhes cabem no coração e na alma.
(continua)
anamar - 1989
As petições entregues na A.R. e a aguardarem que os srs deputados, se dignem olhar para elas, já devem chegar ao tecto da AR.
Afixado por: j.gonçalves em janeiro 12, 2004 08:03 PM